
Por Vanessa Munhoz • Comunicação do LISA
Publicação: 26/08/2026
Carta do Povo Manoki à Família de André Tupxi
À família de André Luiz Lopes Neves, nosso querido Tupxi,
É com o coração profundamente entristecido, mas também cheio de gratidão, que o Povo Manoki se dirige à família de André neste momento de despedida.
André Luiz Lopes Neves chegou ao território Manoki no ano de 2008. Chegou de pele branca, usando protetor solar e repelente, despertando em nós certa desconfiança. Muitos chegaram a pensar que ele não permaneceria sequer um mês entre nós. Estávamos enganados.
André permaneceu conosco por oito anos, vivendo na própria aldeia, compartilhando o cotidiano do nosso povo, construindo amizades, aprendendo com os mais velhos e, sobretudo, conquistando confiança e respeito.
Ao longo desse caminho, André alcançou algo que para nós possui um significado muito profundo: recebeu o batizado tradicional Manoki. Esse é um ritual muito importante, que não é realizado para qualquer pessoa. Ao passar por esse momento, André deixou de ser apenas alguém que veio de fora para trabalhar conosco. Ele passou a fazer parte de nossa família e recebeu o nome de Tupxi.
Como um filho Manoki, Tupxi precisava também ter um pai e uma mãe dentro do nosso povo. Não porque seus pais biológicos estivessem ausentes, mas porque estavam distantes fisicamente de seu filho, que havia escolhido dedicar parte de sua vida aos povos indígenas. Assim, depois de seu batizado, ele foi acolhido por uma família Manoki que passou a recebê-lo e acompanhá-lo como filho.
Tupxi recebeu ensinamentos dos nossos anciãos. Ouviu orientações sobre os caminhos da vida, sobre o respeito à floresta, aos rios, à terra, aos animais e aos espíritos que nos protegem. Aprendeu que a espiritualidade Manoki não está separada da vida: ela está presente em tudo aquilo que somos e fazemos.
Por meio de seu trabalho como antropólogo e, principalmente, por meio de sua convivência conosco, Tupxi conseguiu compreender profundamente parte de nossa crença e de nossa espiritualidade.
Aprendeu que, para nós, quando um Manoki morre, ele não deixa simplesmente de existir. Ele faz uma passagem para a Aldeia das Almas, onde os nossos ancestrais vivem. É um lugar onde não existem doenças, dor, intrigas ou desavenças. Ali, a vida continua de outra maneira, em paz e por toda a eternidade.
Em nossa tradição, mantemos a comunicação e o compromisso com aqueles que partiram. Fazemos oferendas, levamos comida e bebida e conversamos com nossos espíritos. Aqueles que passam pelos rituais e permanecem nesta terra carregam também a responsabilidade de cuidar e alimentar espiritualmente aqueles que estão na Aldeia das Almas.
Tupxi conhecia esse compromisso. Durante sua caminhada junto ao Povo Manoki, participou dessas práticas e fez suas oferendas, honrando a relação que construiu com nosso povo, nossos ancestrais e nossa espiritualidade.
Hoje, pela manhã, nós também realizamos uma oferenda aos nossos espíritos protetores. Falamos com nossos ancestrais e comunicamos que nosso filho André, nosso Tupxi, está chegando para uma nova morada.
Pedimos aos nossos espíritos que o recebam e que, da Aldeia das Almas, ele continue nos protegendo, nos orientando e nos dando sabedoria e força para continuarmos nossa caminhada e nossa luta enquanto Povo Manoki.
Tupxi é filho da terra.
É filho da floresta.
É filho dos rios.
É filho das montanhas.
É filho da nossa espiritualidade.
Ele esteve presente em momentos importantes da nossa história e da nossa luta. Esteve ao nosso lado nas manifestações culturais, acompanhou nossas comunidades, ouviu nossos anciãos, registrou nossas histórias e ajudou a mostrar ao mundo a riqueza do Povo Manoki.
Sua câmera esteve presente em muitos momentos de nossa caminhada. Por meio dela, Tupxi registrou rostos, festas, rituais, lutas, alegrias, conhecimentos e histórias que permanecerão para as próximas gerações.
Hoje, porém, sua câmera silencia.
Mas nós acreditamos que ele não desaparece.
Hoje, Tupxi passa a ser visto em segundo plano, não porque seja menos importante, mas porque assumiu uma nova responsabilidade: cuidar de seu povo a partir da Aldeia das Almas.
Talvez agora ele não esteja mais atrás da câmera registrando nossa caminhada. Talvez esteja à frente dos nossos ancestrais, olhando por nós, acompanhando nossos passos e nos ajudando a encontrar os caminhos que ainda precisamos percorrer.
À família de André, queremos dizer: recebam o nosso abraço, o nosso carinho e o nosso conforto.
Sabemos que nenhuma palavra é capaz de diminuir a dor da perda de um filho, de um irmão, de um familiar tão querido. Mas queremos que saibam que André não esteve sozinho. Ele construiu uma segunda família entre nós. Foi amado, respeitado e reconhecido como filho do Povo Manoki.
Ele veio para nos conhecer, mas acabou também sendo conhecido por nós.
Veio para estudar o nosso povo, mas também aprendeu conosco.
Veio como pesquisador, mas saiu como filho.
E é assim que queremos lembrar de Tupxi: como nosso filho, nosso irmão, nosso amigo e parte da nossa história.
Se for esse o desejo da família...
Queremos também deixar uma palavra especial à família de André.
Se assim for o desejo de vocês, se em algum momento sentirem que esse é o caminho que André gostaria de seguir, o Povo Manoki estará pronto para recebê-lo novamente em nossa terra.
Se a família desejar que suas cinzas sejam semeadas no Território Manoki, no território pelo qual ele também lutou, caminhou, dedicou seu trabalho e deixou parte de sua vida, nós o receberemos de braços abertos.
A terra Manoki, que tantas vezes recebeu seus passos, poderá receber também suas cinzas.
Não como alguém que retorna de fora, mas como filho que volta para casa.
Se essa for a vontade da família, seus afilhados, seus parentes Manoki e todo o nosso povo estarão aqui para recebê-lo com respeito, carinho e espiritualidade. Nós o plantaremos em nossa terra, porque acreditamos que aqueles que amamos continuam fazendo parte daquilo que somos.
E onde seu corpo se transformar novamente em terra, sua memória continuará viva.
Ele poderá voltar para a floresta que conheceu, para os rios que percorreu, para os caminhos que tantas vezes trilhou e para a terra pela qual também ajudou o Povo Manoki a lutar.
Assim como uma semente lançada ao chão, Tupxi poderá permanecer entre nós de outra forma: fazendo parte da terra, da floresta e da vida que tanto respeitou.
Se essa decisão for tomada pela família, saibam que o Território Manoki será também sua casa.
Porque André chegou como alguém de fora, mas Tupxi foi recebido como filho.
E filho, quando parte, sempre tem para onde voltar.
Agradecemos à família por ter nos permitido compartilhar tantos anos de sua vida com André. Agradecemos pelo filho que nos foi confiado e que caminhou conosco durante tantos anos.
Hoje nos despedimos de sua presença física, mas não de sua existência.
Porque, para nós, Tupxi apenas fez sua passagem.
Ele agora tem uma nova morada.
E nós continuaremos alimentando sua memória, falando com ele através de nossa espiritualidade e pedindo que ele, junto aos nossos ancestrais, continue olhando pelo Povo Manoki.
Tupxi, nosso filho, nossa gratidão por tudo que vivemos juntos.
Você chegou como um estranho.
Permaneceu como amigo.
Foi batizado como Manoki.
Foi acolhido como filho.
E partiu levando consigo uma parte do nosso povo, enquanto deixou conosco uma parte de sua história.
Que a Aldeia das Almas o receba em paz.
Que nossos ancestrais o acolham.
Que sua caminhada continue junto aos espíritos que protegem nosso povo.
E que sua memória permaneça viva na terra, na floresta, nos rios, nas histórias, nas fotografias e, principalmente, no coração de cada Manoki que teve a oportunidade de caminhar ao seu lado.
O Povo Manoki agradece ao filho que nos foi dado para caminhar conosco até aqui.
Até logo, Tupxi.
